O peso de um ponto percentual
Estudo da Cassotis quantifica como a qualidade do minério reduz as emissões de CO₂ no alto-forno e como o ganho econômico se distribui entre a mina e a usina
Fonte: Cassotis
Em 10 de setembro de 2026, durante o 3º Seminário de Economia Circular e Sustentabilidade, parte da 10ª edição da ABM Week, em São Paulo, a Cassotis apresentou o trabalho técnico “Descarbonização na indústria siderúrgica: os impactos ambientais e econômicos da qualidade da matéria-prima”. Este texto resume a pergunta, o método e os resultados do estudo. O artigo completo está disponível no ABM Proceedings.
A decisão que vem antes do alto-forno
A siderurgia responde por cerca de 2,6 GtCO₂e por ano, entre 7% e 9% das emissões antrópicas de CO₂. Na rota integrada alto-forno e aciaria a oxigênio (BF–BOF), predominante em várias regiões, a etapa de redução pode emitir até 1,8 t de CO₂ por tonelada de gusa.
As rotas estruturais de descarbonização, como hidrogênio de baixo carbono, eletrificação e captura de carbono, têm alto potencial. No curto e no médio prazo, porém, ainda esbarram em maturidade tecnológica, infraestrutura e custo. Enquanto isso, boa parte das emissões de escopos 1 e 2 depende de decisões que já estão ao alcance da operação: a escolha de fornecedores, a composição da carga e a qualidade dos insumos.
O estudo parte daí. Um aumento de 1 ponto percentual (p.p.) no teor de ferro de produtos de minério já beneficiados reduz emissões e, ao mesmo tempo, se sustenta economicamente para a mina e para a usina?
Como o estudo foi feito
A análise usou um simulador desenvolvido pela Cassotis que representa, de forma integrada, uma mina com planta de beneficiamento e uma usina siderúrgica integrada. Foram avaliadas quatro dimensões: emissões de CO₂, lucro da mina, custo da usina e resultado econômico da cadeia minério–aço. Duas rotas típicas de concentração foram comparadas, a partir do mesmo ROM.
Rota 1, de beneficiamento moderado. Mix de 50% sinter feed e 50% granulado. O sinter feed, obtido por separação magnética, passa de 58% para 59% Fe. O granulado permanece em 61% Fe.
Rota 2, de beneficiamento mais complexo. Mix de 70% sinter feed e 30% pellet feed. Além do mesmo ganho no sinter feed, o pellet feed passa de 64% para 65% Fe, com moagem, deslamagem e flotação reversa.
Na usina, o teor de ferro mais alto reduz a massa de carga ferrosa e a quantidade de ganga levada ao alto-forno. Menos ganga significa menos escória, menor consumo de coque e, portanto, menos CO₂. Para testar a robustez dos resultados, o estudo aplicou uma análise de sensibilidade a parâmetros operacionais (OPSA), variando a perda de massa e o aumento de custo por p.p. de concentração, e uma análise de sensibilidade ao prêmio de preço pela qualidade (PISA).
O que os números mostram
| Indicador (caso-base) | Rota 1 | Rota 2 |
| Emissão de CO₂ (kg/t de gusa) | -19 | -38 |
| Redução sobre 1,8 t CO₂/t de gusa (%) | 1,05 | 2,11 |
| Lucro da mina (US$ milhões) | +2,99 | +2,02 |
| Custo da usina (US$ milhões) | -1,77 | -3,35 |
| Resultado na cadeia minério–aço (US$ milhões) | +4,75 | +5,37 |
Fonte: Bibiano e Marchal (2026). Valores do caso-base de cada rota; no custo da usina, o sinal negativo indica redução de custo.
Na Rota 1, a redução de 19 kg de CO₂ por tonelada de gusa equivale a cerca de 1,05% das emissões da produção de gusa, sem nenhuma mudança na rota produtiva. A mina ganha US$ 2,99 milhões, porque o prêmio pelo sinter feed de maior teor compensa a perda de massa e o custo adicional de beneficiamento. A usina reduz seu custo em US$ 1,77 milhão, com menor consumo de coque. O resultado se manteve positivo em todas as condições operacionais testadas.
Na Rota 2, a redução de emissões dobra, para 38 kg de CO₂ por tonelada de gusa (2,11%), e a cadeia ganha US$ 5,37 milhões no caso-base. A rota, no entanto, é mais sensível à operação. Com perdas de massa e custos mais altos, o lucro da mina fica negativo a partir do ponto 5 da OPSA. A partir do ponto 7, nem a economia da usina compensa, e a cadeia como um todo passa a perder.
Quando o prêmio de preço reequilibra a cadeia
No primeiro ponto em que a mina perde e a cadeia ainda ganha, o estudo testou prêmios maiores pela qualidade do minério. Com 3,5 US$/t/p.p. para o sinter feed e 4 US$/t/p.p. para o pellet feed, os três resultados ficam positivos ao mesmo tempo: a mina volta a ganhar US$ 0,30 milhão, a usina mantém redução de custo de US$ 1,72 milhão e a cadeia soma US$ 2,02 milhões.
O custo do carbono também entra na conta. Com a referência de €75,36/tCO₂e divulgada pelo mecanismo europeu de ajuste de carbono na fronteira (CBAM) para o primeiro trimestre de 2026, cada tonelada de CO₂ evitada passa a ter valor econômico direto e pode compensar parte ou a totalidade do prêmio pago pela usina.
Uma decisão da cadeia, não de um elo
A qualidade da matéria-prima tem efeito direto sobre o desempenho do alto-forno, o consumo de coque e as emissões. A concentração de minério é, portanto, uma via de descarbonização de curto prazo que não depende de novas tecnologias nem de mudança na rota de produção do aço.
O ganho, porém, não se distribui de forma igual. A usina captura a economia de coque e a redução de emissões. A mina arca com o esforço de beneficiamento, a perda de massa e o custo operacional. Por isso, a decisão não deve ser tomada só pela mina nem só pela usina. É um problema de otimização da cadeia integrada, e são as referências de preço e as negociações comerciais que reconhecem o valor da qualidade que alinham os incentivos dos dois lados.






