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23 de Junho de 2026

Estádios da Copa de 2026 somam mais de 150 mil toneladas de aço

Dados de construtoras e engenheiros estruturais mostram que uma única arena do Mundial pode consumir de 6 mil a quase 30 mil toneladas de aço; material também mudou a engenharia dos estádios brasileiros

Na imagem, os estádios BC Place (Canadá), BBVA (México) e SoFi (Estados Unidos), que sediam a Copa do Mundo 2026.

Fonte: Assessoria ABM

Os 16 estádios que receberão partidas da Copa de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, concentram mais de 150 mil toneladas de aço em suas estruturas, segundo dados divulgados por construtoras, engenheiros estruturais e operadores das arenas. O volume equivale ao de mais de 20 torres Eiffel, variando entre 6 mil a 30 mil toneladas por estádio, e revela o papel central do metal na engenharia das sedes do primeiro Mundial disputado em três países concomitantemente e por 48 seleções.

Apesar de expressivos, os números contam apenas parte da história. Mais do que volume, o aço trouxe aos estádios algo que o concreto sozinho jamais entregou: áreas livres, coberturas móveis, prazos de construções cada vez menores e estruturas integralmente recicláveis. É essa combinação que explica por que todas as arenas mais modernas do mundo têm o metal como protagonista.

Para o gerente de Suporte Técnico da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), Márcio Antônio da Silva, essa mudança se explica devido aos avanços tecnológicos e estudos aplicados referentes à área. “Diversos congressos e seminários da ABM Week e de nossos cursos abordam esses usos modernos do aço em grandes construções. O salto qualitativo por meio do uso do material na engenharia se dá de diversas formas, como em agilidade, praticidade, eficiência, custo, manutenção, segurança, entre outras”, explica.

Evolução dos estádios: do concreto maciço ao teto retrátil
A trajetória é marcada por diversas gerações de estádios que recebem a edição do torneio. Entre eles, o Estádio Azteca, na Cidade do México, único do mundo a receber três aberturas de Copa, é produto da engenharia dos anos 1960: sua construção empregou mais de 100 mil toneladas de concreto, contra 8 mil toneladas de aço de alta resistência e 1.200 toneladas de aço estrutural. Nas arenas mais recentes, a estrutura metálica define a arquitetura, e o concreto ocupa papel secundário.

O Brasil viveu essa transição na Copa de 2014. Conforme registrou a distribuidora Paraferro, a Arena Amazônia, em Manaus, recebeu estrutura metálica de 7 mil toneladas em uma cobertura de cerca de 23 mil metros quadrados. Enquanto a Arena da Baixada, estádio do Club Athletico Paranaense, em Curitiba, ganhou na reforma uma estrutura de aproximadamente 4.500 toneladas. O movimento continuou depois do Mundial: na construção da Arena MRV, do Atlético-MG, foram empregadas 5 mil toneladas de aço em fundações, estruturas de sustentação e peças pré-fabricadas.

A escalada das arenas cobertas
É nos Estados Unidos, porém, que a engenharia metálica atinge sua escala máxima. O AT&T Stadium, em Dallas, maior estádio da Copa, tem a cobertura sustentada por 14.100 toneladas de aço estrutural, apoiadas em dois arcos treliçados que vencem um vão de cerca de 373 metros, os mais longos entre todas as edificações do planeta. Cada arco pesa 3.255 toneladas, e a construtora informa que a obra consumiu ainda 22 mil toneladas de aço de reforço embutidas no concreto.

Em Atlanta, o Mercedes-Benz Stadium reúne cerca de 27 mil toneladas de aço: 18 delas apenas no teto fixo, outras 4 na porção retrátil, formada por oito pétalas que se abrem como o diafragma de uma câmera fotográfica, além de 4 mil toneladas utilizadas na fachada do edifício. "É provavelmente o teto mais complexo já construído, fixo ou móvel", afirmou um dos engenheiros do projeto à revista Engineering News-Record.

O SoFi Stadium, em Los Angeles, palco da estreia da seleção americana contra o Paraguai, enfrentou a exigência adicional das normas sísmicas da Califórnia. De acordo com o StadiumDB, a cobertura mobilizou 67 mil toneladas de materiais, com treliças principais de aço de 20 mil toneladas e cabos de 1.400 toneladas, em estrutura independente do estádio projetada para resistir a abalos sísmicos.

O NRG Stadium, em Houston, o primeiro da National Football League (NFL) com teto retrátil, utilizou 17.274 toneladas de aço e 423 toneladas de parafusos, segundo o Facilities Management Advisor. Seus dois painéis móveis, de cerca de 2.500 toneladas cada, deslizam sobre trilhos e abrem em minutos, conforme a Electric Choice.

Em Miami, a nova marquise do Hard Rock Stadium exigiu mais de 18.500 toneladas de aço estrutural, material utilizado em sua cobertura, projetada para resistir a ventos de furacão de categoria 4, segundo a fabricante Hillsdale Fabricators. Completam a lista americana o Levi's Stadium, na região de São Francisco, sustentado por cerca de 18 mil toneladas de aço em 14 mil peças, com material 95% reciclável; o Lumen Field, em Seattle, cujas coberturas em forma de concha, com 5.700 toneladas de aço, foram desenhadas para reter o som da torcida; e o MetLife Stadium, em Nova Jersey, sede da final do torneio, cuja estrutura tem mais de 17 mil componentes de aço. A obra aproveitou 40 mil toneladas de aço reciclado do antigo Giants Stadium, demolido ao lado.

No México, o Gigante de Aço
Em Monterrey, o popular Gigante de Aço, Estádio BBVA, consumiu 6.300 toneladas de aço, além de alumínio na cobertura e na fachada, 5.600 toneladas de vergalhões e 57 mil metros cúbicos de concreto, de acordo com o próprio Monterrey.

Já o Estádio Akron, em Guadalajara, projetado para lembrar um vulcão coberto de vegetação, tem estrutura mais leve. Conforme o portal Edifícios de México, a cobertura é sustentada por 16 colunas na periferia do estádio, que suportam uma membrana de 48 mil metros quadrados e uma estrutura de 3.300 toneladas, usada também como coletor de água da chuva para utilizado para irrigação da grama e lavagem do próprio estádio.

No Canadá, 35 quilômetros de cabos
O BC Place, em Vancouver, tem uma das soluções mais elaboradas do torneio. Segundo o governo da Colúmbia Britânica, o teto retrátil sustentado por cabos, o maior do gênero no mundo, exigiu 18 mil toneladas de aço, 35 quilômetros de cabos e 76 mil metros quadrados de tecido. "É um dos projetos mais complicados já realizados nesta comunidade", afirmou David Podmore, presidente da estatal que administra a arena, ao Daily Commercial News durante a reforma. Em Toronto, o BMO Field foi ampliado para atender às exigências da Fifa.

Da cobertura à arquibancada, o avanço do inox
A evolução não se limita ao aço estrutural. Nos estádios mais recentes, o aço inoxidável ocupa espaço em praticamente todos os pontos de contato com o torcedor. Conforme análise do Grupo Feital, o inox combina resistência à corrosão, inclusive em regiões costeiras, durabilidade em estruturas de difícil acesso, como coberturas e passarelas, e resistência mecânica com menor peso. Entre os exemplos citados pela empresa estão o Maracanã, que recebeu inox em escadas, corrimãos e áreas de circulação na modernização para a Copa de 2014, a fachada da Allianz Arena, na Alemanha, e o Santiago Bernabéu, que emprega o material em coberturas retráteis e estruturas expostas. 

Segundo o Diretor de Operações da ABM, Valdomiro Roman, as soluções e materiais aplicados nos estádios podem ser utilizadas em prédios e estruturas civis nas cidades e estradas, trazendo mais para perto essas aplicações sofisticadas. “O conhecimento, as técnicas e o desenvolvimento dos materiais ligados a essas estruturas são resultados de anos de estudos e pesquisas, que também passam ela ABM, que proporciona fóruns para intercâmbio, debates, difusão de conhecimento, pesquisas e tecnologias que permitem o melhor uso dessa forma de construir para o nosso país, contribuindo com a eficiência e sustentabilidade, tanto em grandes arenas como em aplicações mais cotidianas da engenharia estrutural”, explica.