Europa acelera corrida pelo ferro verde e mostra possíveis caminhos para o Brasil
Com matriz energética mais limpa e metas regulatórias rígidas, União Europeia avança na descarbonização da siderurgia; especialista aponta que o Brasil tem vantagens naturais, mas ainda carece de estabilidade regulatória para liderar esse movimento
Fonte: Assessoria ABM
A transição energética global deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se consolidar como uma estratégia industrial e econômica. No centro desse movimento está o chamado “ferro verde”, produzido com baixa emissão de carbono é e considerado peça-chave para a descarbonização da siderurgia mundial. Este que é considerado um setor estratégico, em razão da sua responsabilidade com cerca de 7% das emissões globais de CO₂.
Enquanto a Europa acelera investimentos e regulações para consolidar uma indústria de baixo carbono, o Brasil surge como um dos países com maior potencial competitivo para liderar essa nova fase, impulsionado por sua matriz energética limpa, abundância hídrica e reservas de minério de ferro de alta qualidade.
De acordo com dados recentes, a União Europeia gerou 71% de sua eletricidade a partir de fontes limpas em 2024, incluindo renováveis e energia nuclear. No segundo trimestre de 2025, o continente bateu novo recorde, com 54% da eletricidade proveniente apenas de fontes renováveis, puxada principalmente pela expansão da energia solar e eólica. Países como Noruega, Islândia, Dinamarca, Áustria e Portugal já operam com índices superiores a 80% de energia renovável.
Para o Diretor de Operações da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), Valdomiro Roman, esse cenário reforça que a descarbonização industrial deixou de ser uma tendência futura para se tornar uma exigência competitiva imediata. “A indústria de base está no centro da transição energética. Não existe economia verde sem aço, sem mineração e sem minerais estratégicos. O que muda agora é a forma como esses insumos serão produzidos, e o ferro ou aço verde passam a ser protagonistas dessa nova ordem industrial”, afirma.
A GavititHy é uma iniciativa francesa criada com a ambição de liderar a descarbonização das siderúrgicas europeias. Seu CEO, José Noldin, enxerga que a grande diferença entre Europa e Brasil está menos na capacidade técnica e mais na estrutura regulatória. “A Europa identificou que a descarbonização é uma oportunidade de reindustrialização. Nesse caso, não se trata apenas de uma ambição climática, mas de uma lei. O Green Deal (estratégia para transformar a Europa no primeiro continente climaticamente neutro) virou compromisso legal, com metas claras até 2050 e objetivos intermediários já estabelecidos para 2030 e 2040”, explica.
Entre os principais instrumentos estão o Fit for 55, pacote regulatório que prevê redução de 55% das emissões até 2030 em relação aos níveis de 1990; o Net-Zero Industry Act (NZIA), voltado ao fortalecimento da indústria limpa; e o Steel and Metals Action Plan, direcionado especificamente à siderurgia.
Outro mecanismo relevante é o CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism), que começou a entrar em vigor em 2026 e estabelece cobrança sobre emissões de carbono de produtos importados para a Europa, incluindo o aço. “Não adianta apenas impor custos à indústria. É preciso criar mercado, proteger competitividade e garantir demanda para o aço verde. A Europa entendeu isso e construiu um ambiente em que a transição energética também significa oportunidade econômica”, destaca Noldin.
Brasil tem vocação natural, mas falta previsibilidade
Apesar de ainda estar atrás da Europa em termos regulatórios, o Brasil reúne condições naturais altamente favoráveis para se tornar um dos protagonistas globais do ferro verde.
Além da matriz energética majoritariamente renovável, o país possui disponibilidade hídrica, potencial de expansão em hidrogênio verde e tradição no uso de biomassa e carvão vegetal na produção siderúrgica. “O Brasil tem minério de ferro de alta qualidade, água recursos hídricos abundantes e uma matriz elétrica extremamente limpa. Isso torna muito lógico produzir ferro ou aço verde aqui, seja via redutores alternativos como hidrogênio verde ou por rotas mais sustentáveis, com carvão vegetal, forno elétrico, matérias-primas pré-reduzidos ou recicladas. O potencial existe e é enorme”, explica Roman.
Noldin ainda destaca que, para ele, o principal gargalo está na ausência de um ambiente regulatório estável e previsível que permita investimentos de longo prazo. “No Brasil existe ambição, mas ainda faltam obrigação e meios. Não basta dizer que o país quer ser Net-Zero em 2050, se não há regras claras, mecanismos de financiamento e segurança jurídica para quem precisa investir bilhões em projetos industriais”, afirma.
Valdomiro Roman reforça que a construção desse ambiente passa por uma visão estratégica de Estado e não apenas de governo. “O Brasil não precisa copiar a Europa, mas pode aprender muito com os avanços de lá. É necessário criar um caminho próprio, respeitando nossas vocações naturais, mas com políticas consistentes e permanentes. A indústria precisa de previsibilidade para investir”, pontua.
Ferro e aço: a nova lógica da siderurgia
Outro conceito que ganha força nesse novo cenário é a separação entre a produção de ferro verde e a fabricação do aço final. Para Noldin, essa lógica será determinante para acelerar a descarbonização do setor. Ele compara o processo ao funcionamento de uma padaria. “A siderúrgica deve focar no aço, assim como a padaria foca no pão. O ferro verde seria como a farinha: precisa ser produzido onde há energia limpa, boa logística e competitividade. Depois, ele abastece as siderúrgicas, que transformam isso em diferentes tipos de aço”, explica.
Essa estratégia, chamada de decoupling, permite que o ferro seja produzido em regiões mais competitivas energeticamente, enquanto a fabricação do aço permanece próxima aos centros consumidores.
Para Roman, essa visão mostra que a transição energética exige uma reorganização profunda da cadeia industrial. “Estamos falando de uma nova geografia da produção industrial. O ferro verde não é apenas uma inovação tecnológica, mas uma redefinição estratégica do fluxo de processo da siderurgia global. Quem se posicionar agora terá vantagem competitiva nas próximas décadas”, conclui.
Com a Europa avançando de forma acelerada e o Brasil reunindo vantagens estruturais relevantes, o debate sobre ferro verde deixa de ser apenas uma pauta técnica e passa a ocupar espaço central nas decisões industriais, econômicas e geopolíticas do presente. Diante desse cenário, a ABM reforça seu papel como articuladora técnica e institucional desse debate, promovendo a conexão entre indústria, academia, especialistas e lideranças do setor para acelerar a construção de uma siderurgia mais competitiva e sustentável. Ao estimular discussões sobre descarbonização, inovação e novas rotas produtivas, a entidade contribui para que o Brasil avance de forma estratégica no mercado global de materiais de baixo carbono, transformando potencial em protagonismo industrial.






